ARTIGO ENVIADO POR, KINO SOGARU
Nas vastas terras da animação japonesa, ergue-se Given como uma obra de rara sensibilidade, forjada pela pena-tinteiro ou nanquim de Natsuki Kizu — mangaká nascida em 1992 e artífice de sua primeira narrativa extensa, após contos menores como Yukimura-sensei to Kei-kun. Sob os cuidados do estúdio Lerche, braço criativo da Studio Hibari, a adaptação televisiva emergiu no verão de 2019, marcando como a primeira série Boys Love a adentrar o prestigioso bloco Noitamina da Fuji TV.
Não se tratava de mero entretenimento passageiro, mas de um conto tecido com fios de luto e renascimento, onde a música não era ornamento, mas a própria voz dos personagens a buscar redenção em acordes e silêncios.
A trilha sonora, composta por Michiru e interpretada com alma pelo artista Centimillimental, transcende a função diegética para tornar-se linguagem emocional pura; canções como "Fuyu no Hanashi" empregam estruturas rítmicas complexas — incluindo compassos em 7/4 — e jogos de palavras entre "neve" (yuki) e "inverno" (fuyu) para exprimir a dor inominável de Mafuyu.
Diferente de outras obras do gênero que por vezes fetichizam o afeto masculino, Given distingue-se pela abordagem madura e desprovida de estereótipos, tratando a relação entre Ritsuka e Mafuyu com a mesma gravidade e respeito dedicados à evolução técnica da banda — desde o dedilhado preciso da guitarra até o uso catártico do falsete como símbolo de cura. Tal autenticidade rendeu-lhe aclamação crítica e pública, sendo saudada como uma das narrativas LGBTQIA+ mais saudáveis e realistas de sua era.
Curiosidades técnicas enriquecem ainda mais esta tapeçaria narrativa: os títulos dos episódios homenageiam canções célebres do rock alternativo, estabelecendo um diálogo intertextual que ecoa os conflitos internos dos jovens músicos. A produção do estúdio Lerche primou por uma animação suave e iluminação expressiva, capturando não apenas os movimentos das mãos nos instrumentos, mas a atmosfera densa dos ensaios e a vulnerabilidade dos olhares trocados à meia-luz. Cada detalhe, desde o design de personagens de Mina Osawa até a direção de Hikaru Yamaguchi, convergiu para criar uma experiência imersiva onde o som e a imagem se fundem em uníssono poético.
Assim, Given permanece não como um artefato isolado, mas como um marco que redefiniu as fronteiras do Boys Love na mídia animada, provando que histórias de amor entre homens podem ser universais, artisticamente rigorosas e profundamente humanas. Que os ecos de suas melodias continuem a ressoar pelos corredores do tempo, lembrando a todos que, mesmo nas noites mais longas, a aurora sempre há de romper — tal qual a canção profetiza: Yoru ga Akeru.
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